terça-feira, 31 de março de 2009

Pra que serve uma crise mundial?





Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado?
É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas, vimos essas imagens.




No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá, sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se
sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o
problema da fome no mundo.
Resolver, capicce?
Extinguir.
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado. Digamos que seja o dobro.
Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.


Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da
cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para
salvar da fome quem já estava de barriga cheia. Bancos e investidores.
Como uma pessoa comentou, é uma pena que esse texto só esteja em blogs e
não na mídia de massa, essa mesma que sabe muito bem dar tapa e afagar...
Se quiser, repasse, se não, o que importa?
"O nosso almoço tá garantido mesmo ..
."

(Texto de Mentor Muniz Neto, diretor de criação e sócio da Bullet, uma das
maiores agências de propaganda do Brasil, sobre a crise mundial.)

sexta-feira, 27 de março de 2009

O mistério está é na tua vida!





Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

(Mario Quintana)

Jardim

- O senhor cultiva epigramas?
- Não, só a grama do meu jardim.

            (Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 23 de março de 2009

A serena majestade de Maria




Assim como uma visão sem ser visão, apenas sensação de comunicação, como um vento de brisa suave invadindo o instante da alma em oração, ousei fazer uma pergunta, que na verdade não fui eu quem a fiz, talvez o sopro do Espírito.

Ele quis revelar através daquela que é repleta do Espírito, numa pergunta, que foi se desfolhando em outras, até que o véu deixasse deslumbrara luz.

A pergunta, súbita e aparentemente sem sentido, foi assim revelada: "Senhora, se durante a infância do Menino, a senhora antevendo o sofrimento que haveria de vir, pedisse ao Pai, para que fosse mudado o
desenvolver da história, Ele lhe teria atendido?
" Então como um sorriso quase imperceptível, suave como o sopro matutino, Ela respondeu apenas "Sim". Mas a ousadia do vento que sopra onde quer e quando quer, instigou para mais uma pergunta: "A Senhora pressentia o que o Menino haveria de passar?" Mais uma vez, com uma serena majestade Ela se dignou a olhar para baixo e meigamente, como
só podem ser as mães, amorosas, respondeu: " Sim".

Não ousando mais nada perguntar e invadido por uma sensação de imensa paz, aquietei-me contemplativo; mas em seguida, brotou dentro do meu coração uma última pergunta, vinda de não sei onde e feita à revelia da razão e da emoção: ''A Senhora, em algum momento, teve vontade de pedir ao Pai?" Ah, serena majestade de olhar e sorrir! Tão pequeno me senti naquele momento e ao mesmo tempo tão compreendido que a derradeira resposta me fez perceber:"Não".

Nesse momento a contemplação levou-me a um estranho lugar onde eu nunca havia imaginado poder estar, o coração do discípulo amado aos pés da cruz e compreendi então, assim de repente, em plenitude, as palavras do Senhor: "Mãe, eis aí o teu fi­lho. Filho, eis aí a tua Mãe".

O que poderia eu mais pensar ou perguntar? Senão apenas sentir uma imersão numa paz subli­me, como se num oceano de luz estivesse a flutuar, como numa água-viva sideral, cósmica, entre jardins de estrelas.

O que poderia mais desejar, se­não apenas permanecer? E per­manecendo armar como que uma tenda, assim pertinho do Mistério, quase o tocando, doce mistério de onde emana toda forma de vi­da. E permanecendo não mais so­frer, nem mais sonhar, apenas sentir a luz em plenitude.

A Senhora,no entanto, com seu sorriso terno, parecia per­ceber todo o sentimento que emanava de mim, pois neste es­tado só se é sentimento, não mais matéria nem ilusão, não mais inteligência nem raciocí­nio, apenas sentimento, e fazia­ me retomar para a planície. Sob seus pés o sacrário aberto, co­mo um generoso útero que não retém o filho, mas que o dá à luz, sem dores de parto, sem an­gústia, sem lágrimas. Generoso e sagrado útero que partilha seu fruto como um pão, com a hu­manidade faminta.

O último peregrino da fila, compungido, recebeu a partícula em atitude silenciosa e voltou ao seu lugar na assembleia. Com a âmbula (pequeno vaso onde se guardam os santos óleos) quase vazia, mas reple­ta de significado, dirigi-me ao sa­crário, aos pés da Senhora, e ali a depositei. Antes, porém, por al­guns instantes imperceptíveis, ainda olhei para a serena face. Pude ouvir em seguida, do sacer­dote “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe".

O que entender de tudo ?

(“A serena majestade de Maria” -ASSUERO GOMES - Médico e Escritor)

sábado, 14 de março de 2009

sexta-feira, 13 de março de 2009

Busca da Felicidade



" A busca da felicidade é o único compromisso
do ser humano com a vida."

Persistente Cio _ TOTAL




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"Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação da primeira leitura..."
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É muito interessante observar o quanto a ditadura da velocidade e do "não tenho tempo a perder" retira do cotidiano das metrópoles (e de suas tristes simulações) uma das mais profundas maneiras de aproveitar, de fato, o tempo: a necessária paciência para a fruição, quase degustação lenta, dos movimentos de busca intensa do prazer originário do universo da leitura. Essa insana tacocracia, vivida sem reflexão, produz uma amarga rejeição à eroticidade inerente aos momentos nos quais é preciso entrar no cio emanado da leitura prazerosa, do mergulho intencional e povoadamente solitário que nos atinge quando nos abandonamos aos sussurros que vêm de dentro.

Por isso, ao escrever "A Arte de Amar" (nela incluída a capacidade de não admitir a banalização do erótico no sexual), o psicanalista alemão Eric Fromm — nas suas geniais tentativas de juntar as concepções de Marx e Freud, que tanto influenciaram a contracultura dos anos 1970 — nos advertiu de que "o homem moderno pensa perder algo — tempo — quando não faz as coisas depressa; entretanto não sabe o que fazer com o tempo que ganha, a não ser matá-lo".

Há frase mais tola do que a daquele ou daquela que diz "acho que, para passar (ou matar) o tempo, vou ler alguma coisa"? Ler um livro para matar o tempo? Não! Afonso Arinos de Melo Franco, importante jurista e político mineiro, mais conhecido por ser autor da primeira lei, em 1951, contra a discriminação racial, mas que também era escritor (ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1958, mesmo ano em que foi eleito senador), escreveu em "A Escalada" que "domar o tempo não é matá-lo, é vivê-lo".

Viver o tempo! Vivificá-lo, torná-lo substantivo e desfrutável. Ora, nada como um bom livro para fazer pulsar a vida no nosso interior, vida essa que, quando absortos na leitura, nos faz esquecer a fluidez temporal e nos permite suspender provisoriamente a mortalidade e a finitude. É um pouco a percepção que teve o russo Turgueniev dos principais escritores do século 19; na inquietante obra "Pais e Filhos", escreveu: "O tempo, que frequentemente voa como um pássaro, arrasta-se outras vezes que nem uma tartaruga; mas nunca parece tão agradável como quando não sabemos se ele anda rápido ou devagar".

Mas o que é um bom livro? A subjetividade da resposta é evidente. No entanto é possível estabelecer um critério: um bom livro é aquele que emociona você, isto é, aquele que produz sentimentos vitais, que gera perturbações, que comove, abala ou impressiona. Em outras palavras, um bom livro é aquele que, de algum maneira, afeta você e o impede que passe adiante incólume.

A emoção do bom livro é tão imensa que se torna, lamentavelmente, irrepetível. Álvaro Lins, crítico literário pernambucano que chegou a chefiar a Casa Civil do governo JK, fez uma reflexão no "Notas de um Diário de Crítica" que expressa uma parte dessa contraditória agonia: "Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação da primeira leitura, que não teremos renovada a felicidade de ignorá-los num dia e conhecê-los no dia seguinte".

Certa vez, o grande linguista e pensador brasileiro Flávio Di Giorgi perguntou a um aluno, em um sarau na PUC-SP, se ele já houvera lido a "Odisséia", de Homero; o jovem, cabeça baixa, um pouco envergonhado, disse que não. Imediatamente, o professor, olhos umedecidos, disse a ele, voz embargada e com a sinceridade de sempre: "Eu o invejo; eu já a li".

Assim — mesmo que quase tudo hoje em dia dificulte a urgência de vivificar com uma boa leitura, especialmente a estafa resultante do desequilíbrio e da correria incessante —, muitos não se deixam humilhar pelos assassinos do tempo; para impedir a vitória da mediocridade espiritual, há os que cantam com Djavan — na belíssima "Faltando um Pedaço" — e sabem que "o cio vence o cansaço".

(Mario Sergio Cortella, filósofo, comentarista, debatedor e âncora em programas de TV e Rádio, ex - Secretário Municipal de Educação de São Paulo)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2609200226.htm

quinta-feira, 5 de março de 2009

Acenda uma Luz

"Mais vale acender um fósforo
do que maldizer a escuridão.
"

               (Provérbio Oriental)

O persistente cio - II

Peter Ilsted [ A Girl Reading in an Interior ]


Viver o tempo! Vivificá-lo, torná-lo substantivo e desfrutável. Ora, nada como um bom livro para fazer pulsar a vida no nosso interior, vida essa que, quando absortos na leitura, nos faz esquecer a fluidez temporal e nos permite suspender provisoriamente a mortalidade e a finitude. É um pouco a percepção que teve o russo Turgueniev dos principais escritores do século 19; na inquietante obra "Pais e Filhos", escreveu: "O tempo, que frequentemente voa como um pássaro, arrasta-se outras vezes que nem uma tartaruga; mas nunca parece tão agradável como quando não sabemos se ele anda rápido ou devagar".

Mas o que é um bom livro? A subjetividade da resposta é evidente. No entanto é possível estabelecer um critério: um bom livro é aquele que emociona você, isto é, aquele que produz sentimentos vitais, que gera perturbações, que comove, abala ou impressiona. Em outras palavras, um bom livro é aquele que, de algum maneira, afeta você e o impede que passe adiante incólume.

A emoção do bom livro é tão imensa que se torna, lamentavelmente, irrepetível. Álvaro Lins, crítico literário pernambucano que chegou a chefiar a Casa Civil do governo JK, fez uma reflexão no "Notas de um Diário de Crítica" que expressa uma parte dessa contraditória agonia: "Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação da primeira leitura, que não teremos renovada a felicidade de ignorá-los num dia e conhecê-los no dia seguinte".

(Mario Sergio Cortella, filósofo, atua como comentarista, debatedor e âncora em programas de TV e Rádio)