quinta-feira, 27 de março de 2008

"Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí."
(Gilberto Gil - Esotérico)

Caminhos da liberdade - I

Como você realmente gostaria de ser lembrado na vida?

O poeta indiano Rabindranath Tagore tinha certeza de que gostaria de ser reverenciado como um homem livre, que viveu ao máximo seu próprio ser. Eu só tenho um desejo que se lembrem de mim como um cantor de orações, como um dançarino, como um poeta que ofereceu todo seu potencial, todas as flores do seu ser para a divindade desconhecida da existência, dizia ele. Porém, também foi Tagore quem escreveu que desejava a liberdade mas que também amava tudo aquilo que o acorrentava na vida, que ele chamou de meu manto de poeira e morte. Odeio-o, mas o abraço com amor, reconheceu humildemente o poeta. Tagore era como qualquer um de nós: querendo ser livre mas ainda assim amando e desejando aquilo que o agrilhoava.

Mas a própria liberdade parece não se importar muito com nossas correntes e o estranho (mas perfeitamente compreensível) amor que dedicamos a elas.
O belo e famoso soneto da poeta americana Emma Lazarus, Novo Colosso, aos pés da Estátua da Liberdade, em Nova York, dá as boas-vindas aos fracos, miseráveis e desesperados como nós, que desejam ser livres. O poema foi dedicado aos milhões de imigrantes que chegavam aos Estados Unidos entre o fim do século 19 e o início do século 20, gente que ansiava por liberdade política, religiosa, econômica. Para eles, a deusa oferece, generosamente, a luz brilhante de sua tocha.

(Liane Alves - Revista Vida Simples)

terça-feira, 18 de março de 2008

Fale-nos sobre Deus


A tenda do Mestre Benjamim estava cheia. Uma velhinha de voz trêmula pele cheia de rugas lhe pediu: Mestre, fale-nos sobre Deus...”
Mestre Benjamim fez silêncio. Olhou para o vazio. Vagarosamente um sorriso foi-se abrindo.
“Quantas pessoas aqui, na minha tenda, estão pensando no ar? Por favor, levantem uma mão...”
Ninguém levantou a mão.
“Ninguém levantou a mão... Ninguém está pensando no ar. E, no entanto, todos nós o estamos respirando. O ar é a nossa vida e não precisamos pensar nele nem dizer o seu nome para que ele nos dê vida. Mas o homem que se afoga no fundo das águas só pensa no ar. Deus é assim. Não é preciso pensar nele e pronunciar o seu nome. Ao contrário, quando se pensa nele o tempo todo é porque está se afogando...
“Que desejamos para os nossos filhos? Que eles sejam felizes. Sorrimos ao vê-los por aí a correr, a pular, a cantar, a brincar, pensando nas coisas de criança. Mas enquanto brincam e riem eles não pensam em nós. Se um filho ao se levantar viesse até você e o elogiasse, e agradecesse porque você lhe deu a vida e jurasse amor para sempre, e fizesse a mesma coisa na hora do almoço, e repetisse os mesmos gestos e palavras ao meio da tarde, e de noite fizesse tudo de novo, suspeitaríamos de que alguma coisa não está bem. O que desejamos é que eles gozem a vida sem pensar em nós. Quem pensa demais e fala demais sobre Deus é porque não o está respirando.

Fez-se silêncio. Foi quando uma lufada de vento entrou pela tenda, fazendo balançar a lâmpada de óleo que pendia do teto.
“Deus é como o vento. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Na flauta o vento se transforma em melodia. Mas não é possível engarrafá-lo. Mas as religiões tentam engarrafá-lo em lugares fechados a que eles dão o nome de “casa de Deus”. Mas se Deus mora numa casa estará ele ausente do resto do mundo? Vento engarrafado não sopra...”
Ouviu-se então o pio distante de uma coruja.
“Deus é como um pássaro encantado que nunca se vê. Só se ouve o seu canto...” “Deus é uma suspeita do nosso coração de que o universo tem um coração que pulsa como o nosso. Suspeita... Nenhuma certeza. Deus nos deu asas. Mas as religiões inventaram gaiolas.
Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves dos céus, os lírios dos campos... Até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério.
É preciso esquecer os nomes de Deus que as religiões inventaram para encontrá-lo sem nome no assombro da vida.
Não precisamos dizer o nome “rosa” para sentir o seu perfume.
Muitas pessoas que jamais pronunciam o nome de Deus o conhecem como reverência pela vida.
Há pessoas que se sentem religiosas por acreditar em Deus. De que vale isso? Os demônios também acreditam e estremecem ao ouvir o seu nome (Tiago 2.19).
Os homens religiosos, quando alguém morre, dizem: “Deus o levou para si”. Então, enquanto vivo, ele estava distante de Deus? Deus é Deus dos mortos ou Deus dos vivos? Deus não mora no mundo dos mortos. Ele mora no nosso mundo, passeia pelo jardim. Deus é beleza. Quer ver Deus? Veja a beleza do Sol que se põe, sem pensar em Deus.

Quer ouvir Deus?
Entregue-se à beleza da música, sem pensar em Deus.
Quer sentir o cheiro de Deus? Respire fundo o cheiro do jasmim, sem pensar em Deus.
Quer saber como é o coração de Deus? Empurre uma criança num balanço porque Deus tem um coração de criança, sem pensar em Deus.
Há beleza demais no Universo. Mas o tempo vai-nos roubando as coisas que amamos. Vai-se o arbusto, vai-se a montanha, vão-se os riachos cristalinos, vão-se as pessoas amadas, vamos nós... O tempo é um monstro que devora os seus filhos. Fica a saudade. Saudade é a presença da ausência das coisas que amamos e nos foram roubadas pelo tempo. Quando se pronuncia o nome sagrado, está-se afirmando que a beleza amada não está perdida no passado. Está escrito num poema sagrado: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás...” (Eclesiastes 11.1). As águas dos rios são circulares, o tempo é circular, o que foi perdido volta, um eterno retorno... Deus existe para nos curar da saudade... Eu gostaria de dar um conselho: “Não sejam curiosos a respeito de Deus, pois eu sou curioso sobre todas as coisas e não sou curioso a respeito de Deus. Não há palavra capaz de dizer quando eu me sinto em paz perante Deus e a morte. Escuto e vejo Deus em todos os objetos, embora de Deus eu não entenda nem um pouquinho... Eu vejo Deus em cada uma das vinte e quatro horas e em cada instante de cada uma delas, nos rostos dos homens e das mulheres eu vejo Deus...” (Walt Whitman) “Sejamos simples e calmos como os regatos e as árvores, e Deus amar-nos-á fazendo de nós belos como as árvores e os regatos, e dar-nos-á verdor na sua primavera e um rio aonde ir ter quando acabemos.” (Alberto Caeiro)
Ouvidas essas palavras a velhinha sorriu para o Mestre Benjamim e fez um gesto com a sua mão, abençoando-o.

* Texto condensado do livro Perguntaram-Me Se Acredito em Deus (Ed. Planeta).
(Rubem Alves - psicanalista, educador, teólogo e escritor mineiro)

quinta-feira, 13 de março de 2008

DIZEM QUE DESABAFAR FAZ BEM

Todo mundo já acordou um dia e pensou: "Chega, agora vou falar o que eu preciso!"

Pois é, desabafar não é bem isso; isso é o que chamamos normalmente de “chutar o balde”. Desabafar faz bem porque tem um outro propósito. O de unir, repensar, mudar hábitos e até fazer concessões.

Paranpara é uma tradição hindu de transmitir oralmente os ensinamentos. Os gurus são alguns destes contadores de histórias que tentamos ouvir e aprender.

Há pouco mais de 100 anos, Freud também desenvolveu uma espécie de Paranpara inaugurando a psicanálise e definitivamente oficializou o valor terapêutico de contar a própria história. Desabafar é a garantia da liberdade de expressão e a escuta por alguém de confiança.

“Quando se conta a própria história, ouve-se o eco das emoções, o que está no interior se expande. O que é realmente importante ganha forma e faz sentido. Você vê as coisas por ângulos que ainda não tinha percebido. Conecta os fatos com as emoções e aumenta a possibilidade de aceitar que a vida é um fluxo constante, que as coisas mudam a todo momento. Esses relatos nos remetem ao que é essencialmente humano: amar, nascer, morrer, querer, ganhar, perder”, diz Ciça Vicente de Azevedo, psicóloga e escritora de São Paulo.

No mundo moderno também temos formas virtuais e digitais de Paranpara. O ORKUT, site de relacionamento super badalado, é uma maneira de fazer uma descoberta sobre você mesmo quando tem que explicar ali quem é você e como gostaria de ser visto. Os Blogs são outro tipo ainda mais parecidos com os antigos diários e álbuns testemunhais que contam nossa trajetória.

Os livros de frases intitulados de auto-ajuda são também formas de aprendizado através de lições de vida, que mostram diferentes tipos de heróis e como superaram os obstáculos do caminho. “A palavra de ouro dos contos silenciam o cansaço e o círculo vicioso daquilo que nos acostumamos a chamar de vida”, diz Regina Machado, contadora de histórias da USP.

Desabafar nada mais é que contar nossa história com respeito e vontade de mudar. Portanto, pare de chutar o balde e desabafe devagar e com amor... Paranapara pra você...


*Flávia Lippi é jornalista, apresentadora do Programa Repórter Eco - TV Cultura

Sobreviver

"La vida no es sino una contínua sucesión de oportunidades para sobrevivir."

(Gabriel García Márquez, escritor colombiano)