quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O homem que tinha dois corações

    "Era uma vez um homem que a natureza dotara com dois corações. Ou seja, em cujo peito pulsavam dois corações. Ou seja, que viera a este mundo com dois desses maravilhosos órgãos. Tudo muito bem.
    Certo dia, porém, um dos corações parou. Nada de muito grave, uma vez que o homem dispunha ainda do segundo. O problema é que a história não é assim tão simples. Esqueci-me de referir* que os dois corações dedicavam um ao outro uma paixão antiga, profunda e avassaladora. Como se costuma dizer, no coração daqueles corações ardia a chama do mais puro amor. Assim, quando o primeiro parou, o segundo derreteu-se em lágrimas e deixou de bater por causa do desgosto.
    Concluindo, o homem não resistiu e morreu. Seja como for, a morte não resultou destes sobressaltos cardíacos, digamos assim. O homem faleceu na Arcádia em virtude de uma mordedura de serpente. E agora que está morto, a vida também não lhe tem sido fácil."

* Não é verdade. Estava assaz ansioso por escrever isto. Mas procuro ser um narrador competente e, por isso, esperei pela altura certa para fazer esta significativa revelação.

("Doutor Avalanche" - Rui Manuel Amaral - escritor ficcionista português)



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