sexta-feira, 13 de abril de 2012

Solidariedade I


"Se te perguntarem quem era essa que às areias e aos gelos quis ensinar a primavera...”: é assim que Cecília Meireles inicia um de seus poemas.
Ensinar primavera às areias e aos gelos é coisa difícil. Gelos e areias nada sabem sobre primaveras...
Pois eu desejaria saber ensinar a solidariedade a quem nada sabe sobre ela.
O mundo seria melhor.
Mas como ensiná-la?
Será possível ensinar a beleza de uma sonata de Mozart a um surdo?
E poderei ensinar a beleza das telas de Monet a um cego?
De que pedagogia irei me valer?
Há coisas que não podem ser ensinadas, coisas que estão além das palavras.
Cientistas, filósofos e professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas por meio das palavras. Sobre a solidariedade muitas coisas podem ser ditas.
É possível desenvolver uma psicologia da solidariedade, ou uma sociologia da solidariedade, ou uma ética da solidariedade...
Mas os saberes científicos e filosóficos sobre a solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como as críticas da música e da pintura não ensinam a beleza da música e da pintura.
A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras. Palavras que se ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Não pode ser dita.
A solidariedade pertence à classe de pássaros que só existem em vôo. Engaiolados, eles morrem."

                                                                                                                      (Rubem Alves)

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