quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Espasmo do nascimento - III


" Uma vez nascidos, nada fará com que voltemos ao estado anterior; nada será capaz de reproduzir nossa inocência original, nada fará com que tenhamos sido “não nascidos”. Agora estamos apaziguados, protegidos, em nosso berço confortável mas, de certo modo, “sabemos” – sabemos que poderia ser diferente, e que o mundo é maior que nosso berço e as cobertas que nos protegem.  Ao menos a partir deste “saber”, estamos definitivamente inscritos na existência. E estamos condenados a persistir nela.  Mesmo que venhamos a morrer no próximo segundo, nada, nenhum poder, fará com que nunca tenhamos existido.
http://sofotos.org/fotos-de-bebes
A inércia, elemento que, de certo modo, jogava a nosso favor quando estávamos no útero, agora é nossa inimiga mortal. Tudo é luta. Se antes havia a onipresença dos nutrientes, do calor, da suavidade, agora tudo parte da separação.  É porque estamos, por exemplo, separados do alimento que sentimos fome; é porque estamos separados da proteção que sentimos frio; é porque estamos separados do ar que temos de respirar.  E viver consiste primariamente em ir tomando consciência dessa separação.   É nela que consiste, em sua forma primigênia, nosso verdadeiro existir.
Assim, somos separados, e somos separados porque não nos confundimos com o que não somos nós.  Se isso ainda de certo modo era possível no útero, fora do útero indica uma patologia.  E não somos quase nada, a não ser nós mesmos... chegamos talvez a sonhar em sermos um com nossa mãe, mas nem esse desejo é, em fim de contas, possível.''

(Ricardo Timm de Souza  - Sobre a Construção do Sentido)

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