terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Adélia Prado (ou Por falar em Poetas - 3)

 Aniversário de Adélia Prado, poeta mineira nascida em 1935, autora do excelente texto sobre o casamento, postado aqui no Chá Filosófico.

Releituras.com
"Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou. "
                    (Com licença poética)
 
 A visão da poeta por outro poeta:

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, 
faz poesia como faz bom tempo: 
esta é a lei, não dos homens, 
mas de Deus. 
Adélia é fogo, 
fogo de Deus em Divinópolis". 

(Carlos Drummond)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Espasmo do nascimento - IV (Final)

Alguns estarão a perguntar por que estes textos sobre o espasmo do nascimento.   Antes que surjam mais dúvidas, vou esclarescendo que é por conta do final do ano, quando sugem os questionamentos sobre a vida e os modos de viver, e a proximidade de meu aniversário (o que por si só já seria motivo para estes sentimentos aqui descritos).


Aqui vai a parte final deste texto que selecionei pra estas horas.

http://sofotos.org/fotos-de-bebes
"Assim, não nos resta senão assumirmos nossa visceral unicidade. Não já de uma maneira refletida, ponderada, mas de um modo que permita a nossa sobrevivência.  Viver, já desde suas primeiras instâncias, é um sobre-viver: viver por “sobre” a infinidade de circunstâncias que nos desafia continuamente, embater-se nas ondas da existência, viver apesar das infinitas armadilhas da vida... Cada minuto, cada segundo é, na verdade, a proclamação de uma sobrevivência; significa que, apesar do peso que a vida representa, dos perigos inerentes a ela, nós fomos capazes de achar saídas, saídas das infinitas situações que se sucedem e que poderiam significar, simplesmente, o nosso fim.
Podemos assim compreender que o nascimento, e o que se lhe segue em termos de adaptação ao mundo, é uma das maiores, se não a maior – e mais decisivas – crises pelas quais passa o ser humano."
(Ricardo Timm de Souza  - Sobre a Construção do Sentido)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Espasmo do nascimento - III


" Uma vez nascidos, nada fará com que voltemos ao estado anterior; nada será capaz de reproduzir nossa inocência original, nada fará com que tenhamos sido “não nascidos”. Agora estamos apaziguados, protegidos, em nosso berço confortável mas, de certo modo, “sabemos” – sabemos que poderia ser diferente, e que o mundo é maior que nosso berço e as cobertas que nos protegem.  Ao menos a partir deste “saber”, estamos definitivamente inscritos na existência. E estamos condenados a persistir nela.  Mesmo que venhamos a morrer no próximo segundo, nada, nenhum poder, fará com que nunca tenhamos existido.
http://sofotos.org/fotos-de-bebes
A inércia, elemento que, de certo modo, jogava a nosso favor quando estávamos no útero, agora é nossa inimiga mortal. Tudo é luta. Se antes havia a onipresença dos nutrientes, do calor, da suavidade, agora tudo parte da separação.  É porque estamos, por exemplo, separados do alimento que sentimos fome; é porque estamos separados da proteção que sentimos frio; é porque estamos separados do ar que temos de respirar.  E viver consiste primariamente em ir tomando consciência dessa separação.   É nela que consiste, em sua forma primigênia, nosso verdadeiro existir.
Assim, somos separados, e somos separados porque não nos confundimos com o que não somos nós.  Se isso ainda de certo modo era possível no útero, fora do útero indica uma patologia.  E não somos quase nada, a não ser nós mesmos... chegamos talvez a sonhar em sermos um com nossa mãe, mas nem esse desejo é, em fim de contas, possível.''

(Ricardo Timm de Souza  - Sobre a Construção do Sentido)