terça-feira, 29 de novembro de 2011

Espasmo do nascimento - II

"Então, subitamente, somos expulsos ou retirados, contra qualquer coisa que pudéssemos imaginar fosse a nossa vontade, do receptáculo em que estávamos tão bem acomodados.
http://www.natgeo.com.br/br/especiais/vida-no-ventre/fotos
De um mundo homogêneo, protegido, somos conduzidos a uma situação de pura estranheza. Nada mais de suavidades: o contato de nossa pele frágil, mesmo com o mais delicado dos tecidos com o qual possa nos envolver, será sempre um atrito. De uma só vez, nossa precária organização física terá de se ver com uma quantidade inusitada de novos estímulos e provocações. Teremos de inspirar ar, que entrará frio em nossos pulmões, em um atrito agressivo.  Acomodados em nosso berço, estamos, em um primeiro momento ao menos, em uma situação de enorme desconforto.  Tudo é estranho – luzes, cores, sons, sensações, posições, pesos, estímulos, nossos próprios órgãos chamados à vida autônoma – tudo chora, tudo é Outro. O mundo está para além de nós, vem a nós de forma desconfortável, mas, incisiva, inelutável, inegável.   E uma primeira lição decisiva e profundamente filosófica emerge já dessa multidão de experiências: nascer é atritar a realidade, e viver é atritar o real."

(Ricardo Timm de Souza  - Sobre a Construção do Sentido)


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