segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Viver


Ninguém me contou. Eu ouvi quando meu avô perguntou ao médico quanto tempo ainda tinha de vida. Passara semanas no hospital por conta de uma coisa tipo cirrose hepática, mais branda, eu acho. Pelo menos foi o que disseram.
Recuperou-se, mas só sobreviveria à custa da disciplina de não beber mais nada alcoólico. Recebeu essa notícia com o cenho fechadíssimo. Dava para ouvir lá no coração dele: será que isso é sério?     
Na cabeça, ecoava a pergunta: será que vale a pena?
Rompeu o silêncio e olhou bem na cara do médico: "Doutor, me diz com franqueza, quanto tempo eu tenho de vida?"
O médico riu: "Não dá para prever, depende do que o senhor fizer."
O cenho desfranziu, deu uma vergonha nele, ficou sem jeito.
O médico quis saber qual era o raciocínio por trás da pergunta.
Ele disse, submisso: "É que se fosse pouco, eu ia continuar bebendo."

(Quase morreu - Máximas - Ana Elisa Ribeiro, colunista do Digestivo Cultural).

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