sábado, 13 de junho de 2009

Resolvendo o problema do "futebol sem arte"


Nem todos gostam da fama. Tenho um amigo assim. O cara é tão obsessivo pelo anonimato que se pudesse desenhava um contorno no lugar da foto no RG. Razão pela qual vamos preservá-lo por aqui.

Mas ao contrário da sua crença na invisibilidade, esse é um sujeito de idéias fulminantes. Essa semana ele apareceu lá em casa - como sempre, sem avisar - e foi logo dizendo:

- Resolvi o problema do futebol.

Antes que eu pudesse entender melhor a questão, ele decretou:

- É simples, é só acabar com os gols.

Não adiantava lhe enviar um olhar como se ele fosse louco, já estava acostumado com isso.

- O problema é justamente esse, jogar pelo resultado. Tira-se o resultado e sobra o quê?

No meu rosto nada mais do que um ponto de interrogação.

- O espetáculo, as jogadas, os dribles, enfim, o jogo em si.

E sem ninguém a lhe impedir, concluiu:

- Sem gol não tem retranca, não tem juiz ladrão, ou faltas violentas: tudo que é ruim no futebol.

Arrisquei perguntar como afinal se saberia quem venceria, mas ele já tinha a resposta na ponta da língua:

- Não se saberia. Aí é que está. O problema da vida é justamente esse, a busca de resultados. Em qualquer lugar, não só no futebol.

O sujeito parecia febril, no lugar dos olhos dois sóis ocupavam as cavidades oculares.

- Veja o frescobol, alguém já brigou jogando frescobol?

Eu disse que nunca soube. Ele concluiu com veemência:

- É porque ninguém ganha, ou melhor, ganham os dois que jogam.

E antes que eu dissesse qualquer coisa veio a frase definitiva:

- Chega dessa política liberal que só enxerga os resultados: é preciso frescobolizar o mundo.

E foi saindo, assim, sem avisar, como havia chegado. Eu é que tirasse minhas próprias conclusões. Ele não estava interessado em réplicas.

Fui atrás, lhe dei um tapinha nas costas e disse:

- Você está afiado hoje, hein? - Mas ele nem deu bola, elogios não o seduziam. Abriu a porta por conta própria e foi saindo.

Eu continuei procurando algo que o detivesse, só por teimosia.

Então eu disse, num exercício de drama - aquele tipo de drama que fica a um milímetro da farsa de tão exagerado:

- Só falta explicar o sentido da vida.

Isso o deteve: John Wayne numa remota rua empoeirada, provocado por um pele vermelha. Tal qual os mocinhos fazem, ele esperou que eu sacasse a arma primeiro.

- De onde viemos? (Perguntei eu.)

Ele quase riu, pelo jeito era algo em que já havia pensado muito, então disse:

- Não interessa.

- Para onde vamos?

- Também não.

E se mandou.

(Sujeito estranho - José Pedro Goulart - Zero Hora)

Nenhum comentário:

Postar um comentário