segunda-feira, 23 de março de 2009

A serena majestade de Maria




Assim como uma visão sem ser visão, apenas sensação de comunicação, como um vento de brisa suave invadindo o instante da alma em oração, ousei fazer uma pergunta, que na verdade não fui eu quem a fiz, talvez o sopro do Espírito.

Ele quis revelar através daquela que é repleta do Espírito, numa pergunta, que foi se desfolhando em outras, até que o véu deixasse deslumbrara luz.

A pergunta, súbita e aparentemente sem sentido, foi assim revelada: "Senhora, se durante a infância do Menino, a senhora antevendo o sofrimento que haveria de vir, pedisse ao Pai, para que fosse mudado o
desenvolver da história, Ele lhe teria atendido?
" Então como um sorriso quase imperceptível, suave como o sopro matutino, Ela respondeu apenas "Sim". Mas a ousadia do vento que sopra onde quer e quando quer, instigou para mais uma pergunta: "A Senhora pressentia o que o Menino haveria de passar?" Mais uma vez, com uma serena majestade Ela se dignou a olhar para baixo e meigamente, como
só podem ser as mães, amorosas, respondeu: " Sim".

Não ousando mais nada perguntar e invadido por uma sensação de imensa paz, aquietei-me contemplativo; mas em seguida, brotou dentro do meu coração uma última pergunta, vinda de não sei onde e feita à revelia da razão e da emoção: ''A Senhora, em algum momento, teve vontade de pedir ao Pai?" Ah, serena majestade de olhar e sorrir! Tão pequeno me senti naquele momento e ao mesmo tempo tão compreendido que a derradeira resposta me fez perceber:"Não".

Nesse momento a contemplação levou-me a um estranho lugar onde eu nunca havia imaginado poder estar, o coração do discípulo amado aos pés da cruz e compreendi então, assim de repente, em plenitude, as palavras do Senhor: "Mãe, eis aí o teu fi­lho. Filho, eis aí a tua Mãe".

O que poderia eu mais pensar ou perguntar? Senão apenas sentir uma imersão numa paz subli­me, como se num oceano de luz estivesse a flutuar, como numa água-viva sideral, cósmica, entre jardins de estrelas.

O que poderia mais desejar, se­não apenas permanecer? E per­manecendo armar como que uma tenda, assim pertinho do Mistério, quase o tocando, doce mistério de onde emana toda forma de vi­da. E permanecendo não mais so­frer, nem mais sonhar, apenas sentir a luz em plenitude.

A Senhora,no entanto, com seu sorriso terno, parecia per­ceber todo o sentimento que emanava de mim, pois neste es­tado só se é sentimento, não mais matéria nem ilusão, não mais inteligência nem raciocí­nio, apenas sentimento, e fazia­ me retomar para a planície. Sob seus pés o sacrário aberto, co­mo um generoso útero que não retém o filho, mas que o dá à luz, sem dores de parto, sem an­gústia, sem lágrimas. Generoso e sagrado útero que partilha seu fruto como um pão, com a hu­manidade faminta.

O último peregrino da fila, compungido, recebeu a partícula em atitude silenciosa e voltou ao seu lugar na assembleia. Com a âmbula (pequeno vaso onde se guardam os santos óleos) quase vazia, mas reple­ta de significado, dirigi-me ao sa­crário, aos pés da Senhora, e ali a depositei. Antes, porém, por al­guns instantes imperceptíveis, ainda olhei para a serena face. Pude ouvir em seguida, do sacer­dote “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe".

O que entender de tudo ?

(“A serena majestade de Maria” -ASSUERO GOMES - Médico e Escritor)

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