quinta-feira, 5 de março de 2009

O persistente cio - II

Peter Ilsted [ A Girl Reading in an Interior ]


Viver o tempo! Vivificá-lo, torná-lo substantivo e desfrutável. Ora, nada como um bom livro para fazer pulsar a vida no nosso interior, vida essa que, quando absortos na leitura, nos faz esquecer a fluidez temporal e nos permite suspender provisoriamente a mortalidade e a finitude. É um pouco a percepção que teve o russo Turgueniev dos principais escritores do século 19; na inquietante obra "Pais e Filhos", escreveu: "O tempo, que frequentemente voa como um pássaro, arrasta-se outras vezes que nem uma tartaruga; mas nunca parece tão agradável como quando não sabemos se ele anda rápido ou devagar".

Mas o que é um bom livro? A subjetividade da resposta é evidente. No entanto é possível estabelecer um critério: um bom livro é aquele que emociona você, isto é, aquele que produz sentimentos vitais, que gera perturbações, que comove, abala ou impressiona. Em outras palavras, um bom livro é aquele que, de algum maneira, afeta você e o impede que passe adiante incólume.

A emoção do bom livro é tão imensa que se torna, lamentavelmente, irrepetível. Álvaro Lins, crítico literário pernambucano que chegou a chefiar a Casa Civil do governo JK, fez uma reflexão no "Notas de um Diário de Crítica" que expressa uma parte dessa contraditória agonia: "Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação da primeira leitura, que não teremos renovada a felicidade de ignorá-los num dia e conhecê-los no dia seguinte".

(Mario Sergio Cortella, filósofo, atua como comentarista, debatedor e âncora em programas de TV e Rádio)

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