domingo, 26 de outubro de 2008

O fim do Céu e da Terra

A natureza de uma coisa faz outra brotar,

E, da morte, uma nova vida nascer.

Lucrécio (c. 98-55 a.C.)

Durante toda a história da humanidade, a passagem do tempo sempre foi vista com um misto de fascínio e terror. Como todos os seres vivos, nós nascemos, atingimos a maturidade, procriamos e morremos. Mas, aparentemente, apenas nós temos consciência de nossa mortalidade. Essa consciência é uma benção e uma maldição. Na tentativa de produzir um legado que, esperamos, sobreviva à nossa curta vida, nós criamos obras de arte e teorias, temos filhos e ajudamos aqueles que sofrem necessidades. No entanto, indiferente às nossas criações e paixões, a morte continua a causar desespero, imagelágrimas e gritos conta a injustiça, comprovando nossa derrota final diante da onipotência da Natureza em criar e destruir.

Para aliviar o medo da morte e da dor de perder uma pessoa amada, as religiões do Leste e do Oeste transformam o fim da vida em um evento que vai muito além da mera incapacidade de um corpo continuar a funcionar. Algumas designam a vida e a morte como etapas igualmente importantes de um eterno clico de existência, enquanto outras prometem a vida eterna no Paraíso para aqueles que seguirem seus preceitos. Em geral, a transição entre a morte e a eternidade é marcada por eventos extremamente dramáticos, cataclismos de proporções horrendas, que balançam a própria estrutura da Terra e dos céus. Os druidas acreditavam em uma sucessão de eras, que terminavam, cada uma, quando os céus caíam sobre a cabeça deles; o masdeísmo acreditava no dia do Julgamento Final, quando aqueles que seguiram uma vida moral e digna seriam abençoados com a vida eterna, ao passo que os fracos de espírito seriam destruídos por dilúvios de fogo e metais derretidos. O último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, anuncia a futura destruição da Terra e do firmamento, perpetrada por uma sucessão de desastres cósmicos, incluindo colisões com “estrelas flamejantes”, o obscurecimento do Sol, da Lua, que se tingirá de sangue, e a queda das estrelas.

Na maioria dos casos, essas religiões forjaram uma profunda relação entre o fim do tempo – quando Deus (ou os deuses) irá determinar o destino de cada um de nós por toda a eternidade – e a destruição da ordem cósmica.

(Prefácio de O fim da Terra e do Céu - O Apocalipse na Ciência e na Religião - Marcelo Gleiser)

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