terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Socialistas por instinto

"Dentro de não muitos anos todos seremos socialistas por instinto de sobrevivência, não por ideologia." (Leonardo Boff)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Influência dos bons pensamentos

Tenho lido alguns livros
interressantes que sempre me remetem à questão da influência dos bons
pensamentos e constante interatividade entre as pessoas.
Só pra dar uma idéia, citarei uns trechos de um destes livros (O Ser Quântico - Danah Zohar - Ed. Best Seller):
"Todas
as coisas e todos os momentos tocam uns nos outros em todos os pontos;
a unidade do sistema completo é suprema." "... O princípio de
não-localidade diz que algo pode ser afetado mesmo na ausência de uma
causa local."

Estas idéias, não são de filósofos ou
sociológos, mas, de estudiosos da física quântica. O que me faz bem
lembrar Boff, quando diz que "todos inter-existem e co-existem. Todos se completam. Ninguém fica fora da rede de relações includentes e envolventes".

Caminhos sem estrelas




"Se as estrelas são inatingíveis,
isso não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
a mágica presença das estrelas... "

                         (Mário Quintana)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Sentido da Ceia de Natal


Nada como uma Ceia de Natal, quando a maioria dos humanos comemora, para reunirmos a grande família para todos atualizarem tudo, regada a presentes, carinho e afeto. Hoje, sabemos o quanto é importante o networking, isto é, a rede de relacionamentos dos conhecimentos e dos afetos.

Uma refeição familiar deveria ser mais que uma comilança. É uma excelente oportunidade para alimentar também os relacionamentos, acompanhar a empreitada de cada um, a estimular quem está desanimando, a acolher num abraço apertado quem está exagerando, a ajudar quem está necessitando, um precisado ou carente se manifestar, a um feedback que venha do coração e não da crítica.

Comecemos no dia-a-dia dentro da própria família, para ampliarmos à grande família e chegarmos ao social, do qual mantemos numa sociedade sem saber nem agradecer o que para quem, e ajudar nossos irmãos sociais mais necessitados. O que é impossível de se fazer todos os dias, que façamos pelo menos na Ceia de Natal.
...
(Içami Tiba - Psiquiatra, educador)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A vida


'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo,
a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.

(Mário Quintana)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A vossa vida diária é o vosso templo e a vossa religião


Um velho sacerdote disse:

- Fala-nos da Religião.

E ele (o profeta) respondeu:

...

- Não será a religião senão todos os atos e toda a reflexão, e tudo aquilo que não é ato nem reflexão, mas encantamento e surpresa sempre emergentes da alma, mesmo quando as mãos talham a pedra ou trabalham no tear?

Quem poderá separar a sua fé das suas ações, ou as suas crenças das suas ocupações?

Quem pode estender as suas horas perante Ele dizendo, "Isto é para Deus e isto é para mim, isto é para a minha alma e isto para o meu corpo?"

Todas as vossas horas são asas que voam no espaço de um eu para o outro eu.

Aquele que usa a sua moral como a sua melhor indumentária faria melhor se andasse nu.

O vento e o sol não abrirão buracos na sua pele.

E aquele que rege a sua conduta pela ética está a aprisionar numa gaiola o pássaro que canta.

Os cânticos mais livres não saem através de grades nem grilhetas.

E aquele para quem a devoção é uma janela, para abrir, mas, também para fechar, ainda não visitou a morada da sua alma cujas janelas vão de aurora a aurora.

A vossa vida diária é o vosso templo e a vossa religião.

Cada vez que entrais nela, entrai por inteiro.

Levai a charrua e a forja, o maço e a lira.

As coisas de que precisais por necessidade ou prazer.

Pois em sonhos não podereis erguer-vos acima dos vossos feitos, nem cair mais baixo do que as vossas falhas.

E levai convosco todos os homens, pois na adoração não podereis voar mais alto do que as suas esperanças, nem humilhar-vos mais baixo do que o seu desespero.

E se quereis conhecer Deus, não pretendais resolver enigmas.

Olhai antes à vossa volta e vê-Lo-eis a brincar com os vossos filhos.

E olhai para o espaço;

Vê-Lo-eis a caminhar sobre as nuvens, de braços estendidos para a luz, descendo sobre a chuva.

Vê-Lo-eis sorrindo no meio das flores, e depois erguer-se e agitar as árvores com as Suas mãos.


 

(O Profeta - Kahlil Gibran)

sábado, 13 de dezembro de 2008

Aniversário

Aniversário

Luiz “Lua” Gonzaga, que faria 96 anos neste sábado (13)

José Oliveira, mais conhecido por Zé da Flauta, como integrante do Quinteto Violado, nos anos 70, fez muita viagens pelo Brasil com Luiz Gonzaga, uma dobradinha musical adorada pelo povo. Mas nunca se aproximou muito de “seu” Luiz, porque este raramente abria a guarda. Uma vez, na estrada, Zé da Flauta notou que Gonzagão tamborilava com os dedos no braço da poltrona do ônibus, acompanhando um reggae de Bob Marley, que tocava no som-ambiente. “Quando a música terminou, eu tentei puxar assunto: e aí, seu Luiz gostou do reggae?”. Luiz Gonzaga voltou-se para ele, com o jeito meio abusado característico, e respondeu: “Que régue, que nada! Isto é só um xote metido a besta!”

(José Teles, do Jornal do Commercio)
http://noboteco.files.wordpress.com/2008/07/luiz-gonzaga1.jpg

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

sábado, 6 de dezembro de 2008

Escrever, para Saramago


"Escrever é ir descobrindo que tínhamos na cabeça mais coisas do que havíamos suposto antes."
(José Saramago, escritor português)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"Um outro Nordeste"


Se Maurício de Nassau voltasse ao Nordeste, ia alegremente se espantar. Aliás, até Frei Caneca, aquele que queria libertar do atraso aquela porção do país e morreu enforcado por liderar a Confederação do Equador, talvez até ele gostasse de ver o que andei vendo “ao som do mar e à luz do céu profundo”.

("Um outro Nordeste" - Affonso Romano de Sant'Anna)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Metáfora


Metáfora (Gilberto Gil)

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

Folha em branco

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ostra Feliz Não Faz Pérola


"Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas - são animais mansos - seriam uma presa fácil dos predadores.

Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas, saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário... Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste... As ostras felizes riam dela e diziam: "Ela não sai da sua depressão..." Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.

O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho - por causa da dor que o grão de areia lhe causava.

Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-a em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade; era uma pérola, uma linda pérola. Apensa a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz...

Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras, e vale para nós, seres humanos.

As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores da alma.

(Rubem Alves)

sábado, 8 de novembro de 2008

Dalai Lama





"Lembre-se que não conseguir o que quer, às vezes, é um grande golpe de sorte."

Histórias para o rei

Nunca podia imaginar que fosse tão agradável a função de contar histórias, para qual fui nomeado por decreto do Rei. A nomeação colheu-me de surpresa, pois jamais exercitara dotes de imaginação, e até me exprimo com certa dificuldade verbal. Mas, bastou que o Rei confiasse em mim para que as histórias me jorrassem da boca à maneira de água corrente. Nem carecia inventá-las. Inventavam-se a si mesmas.

Este prazer durou seis meses. Um dia, a Rainha foi falar ao Rei que eu estava exagerando. Contava tantas histórias que não havia tempo para apreciá-las, e mesmo para ouvi-las. O Rei, que julgava minha facúndia uma qualidade, passou a considerá-la defeito, e ordenou que eu só contasse meia história por dia, e descansasse aos domingos.

Fiquei triste, pois não sabia inventar meia história. Minha insuficiência desagradou, e fui substituído por um mudo, que narra por meio de sinais, e arranca os maiores aplausos.

(A Cor de Cada Um - Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 26 de outubro de 2008

O som das estrelas

"Ora (direis) ouvir estrelas!  Certo Olavo Bilac
   Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
   Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto  
   E abro as janelas, pálido de espanto ...

   E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
   Pois só quem ama pode ter ouvido
   Capaz de ouvir e de entender estrelas."

(Olavo Bilac)                                      

Cientistas gravam o som de três estrelas, semelhantes ao Sol Estrelas, usando o telescópio francês Corot. 

"... é possível perceber que o som de cada uma das estrelas é levemente diferente das demais. Isso acontece porque o som das  estrelas depende da idade, tamanho e composição química de cada um dos astros." BBC Brasil

Escute aqui o som das estrelas

O fim do Céu e da Terra

A natureza de uma coisa faz outra brotar,

E, da morte, uma nova vida nascer.

Lucrécio (c. 98-55 a.C.)

Durante toda a história da humanidade, a passagem do tempo sempre foi vista com um misto de fascínio e terror. Como todos os seres vivos, nós nascemos, atingimos a maturidade, procriamos e morremos. Mas, aparentemente, apenas nós temos consciência de nossa mortalidade. Essa consciência é uma benção e uma maldição. Na tentativa de produzir um legado que, esperamos, sobreviva à nossa curta vida, nós criamos obras de arte e teorias, temos filhos e ajudamos aqueles que sofrem necessidades. No entanto, indiferente às nossas criações e paixões, a morte continua a causar desespero, imagelágrimas e gritos conta a injustiça, comprovando nossa derrota final diante da onipotência da Natureza em criar e destruir.

Para aliviar o medo da morte e da dor de perder uma pessoa amada, as religiões do Leste e do Oeste transformam o fim da vida em um evento que vai muito além da mera incapacidade de um corpo continuar a funcionar. Algumas designam a vida e a morte como etapas igualmente importantes de um eterno clico de existência, enquanto outras prometem a vida eterna no Paraíso para aqueles que seguirem seus preceitos. Em geral, a transição entre a morte e a eternidade é marcada por eventos extremamente dramáticos, cataclismos de proporções horrendas, que balançam a própria estrutura da Terra e dos céus. Os druidas acreditavam em uma sucessão de eras, que terminavam, cada uma, quando os céus caíam sobre a cabeça deles; o masdeísmo acreditava no dia do Julgamento Final, quando aqueles que seguiram uma vida moral e digna seriam abençoados com a vida eterna, ao passo que os fracos de espírito seriam destruídos por dilúvios de fogo e metais derretidos. O último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, anuncia a futura destruição da Terra e do firmamento, perpetrada por uma sucessão de desastres cósmicos, incluindo colisões com “estrelas flamejantes”, o obscurecimento do Sol, da Lua, que se tingirá de sangue, e a queda das estrelas.

Na maioria dos casos, essas religiões forjaram uma profunda relação entre o fim do tempo – quando Deus (ou os deuses) irá determinar o destino de cada um de nós por toda a eternidade – e a destruição da ordem cósmica.

(Prefácio de O fim da Terra e do Céu - O Apocalipse na Ciência e na Religião - Marcelo Gleiser)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Poema do Chacal

"se o mundo não vai bem a seus olhos,
use lentes
…ou transforme o mundo.
a ótica olho vivo
agradece a preferência "

Lençóis sujos

Para um bairro distante e tranqüilo mudou-se, certo dia, um casal e seus filhos. 
Em sua primeira refeição do dia, o casal e filhos sentaram-se para "saborear o seu primeiro dia" na nova casa. Enquanto comiam, a mulher observou pela janela que uma vizinha pendurava lençóis  no varal.  Aí, veio o comentário:
- Puxa, que lençóis sujos!   Pena eu não ter intimidade com ela.  Se tivesse, perguntaria a ela se gostaria que eu lhe ensinasse a lavar roupas!
Calado, o marido ouvia as críticas da mulher sem nada dizer. 

Passados dois dias, o mesmo comentário, desta vez, durante o café da manhã:
- Puxa, que lençóis sujos!   Pena eu não ter intimidade com ela.  Se tivesse, perguntaria a ela se gostaria que eu lhe ensinasse a lavar roupas!
Parecia um robô, sempre as mesmas palavras, os mesmos comentários com referência à vizinha e seus lençóis sujos no varal.
Passado um mês, o comentário mudou:
- Nossa, até que enfim a vizinha aprendeu a lavar roupas!
- Hoje, - disse o marido - levantei-me mais cedo para limpar a vidraça!image
(Autoria desconhecida)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Esquinas

image Só eu sei 
As esquinas por que passei 
Só eu sei só eu sei 
Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar 
Sabe lá
Sabe lá 
E quem será 
Nos arredores do amor
Que vai saber reparar 
Que o dia nasceu
                                                    (Esquinas - Djavan)

Futuro

 

image "Admiro muito a fé e a determinação de um lavrador  nordestino que, sem saber se vai chover, planta para poder  colher o sustento de sua família. Contudo, admiro, especialmente, os plantadores de uva de Petrolina (Pernambuco) e de Juazeiro (Bahia), que criaram um sistema de irrigação artificial que traz as águas do rio São Francisco para suas fazendas. 
       Para eles, chover pode até representar um problema porque altera a quantidade de água de que a planta vai precisar. Eles preferem que não chova para assim determinar o volume exato de água que as uvas receberão.

O futuro deles já não é definido pela presença ou ausência da  chuva. Suas preocupações são outras:  o mercado, como manter a qualidade das uvas, se a Europa vai ou não comprar sua produção.
Resultado: colhem as melhores uvas que já saboreei na minha vida. Eles criaram competências e estruturas que fazem com que o futuro não seja apenas conseqüência da garra, e sim resultado de  planejamento cuidadoso.
       Atualmente, o futuro não pode ser enfrentado somente com espírito de luta, com arco e flecha.
Precisamos sempre da garra, mas acompanhada de conhecimentos, de tecnologia e de equipes poderosas.
       Lembre-se: o futuro é resultado, o futuro é a colheita do que você plantou e está plantando. E esse futuro dinâmico não respeita sobrenome. Sucesso no passado não é garantia de vitórias no  futuro. Então, o que vai acontecer daqui a dez anos será  conseqüência de algo que você está fazendo hoje. Se você está criando uma vida solitária, é inevitável que, no fim, esteja sozinho. Se você está criando hoje muito desperdício, é provável que no futuro esteja pobre."
(Roberto Shinyashiki em 'Os donos do futuro')

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A Felicidade



“A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor” (A Felicidade – Vinícius de Moraes)

A piada abre os canais para expressarmos impulsos socialmente proibidos ou reprimidos



Um português e um físico entram num bar e encontram um buraco negro aos prantos, tomando uma cerveja. O físico, pasmo, não acredita no que vê e fica olhando, desconfiado, da porta. Já o português, encantado com a visão, se aproxima do buraco negro: "Ó, seu buraco negro, sinto-me muito atraído por você". E o buraco negro responde: "Seu falso! Todos me dizem a mesma coisa antes de sumir..."

Por que rimos? Ninguém sabe. O riso tem uma qualidade universal: todas as culturas têm seus contadores de piadas. E, mesmo que a piada tenha graça só para uma cultura, as pessoas reagem sempre da mesma forma. Não importa se a língua é completamente diferente, se a pessoa é da Mongólia, um aborígene australiano ou um índio tupi, o riso é sempre muito parecido, uma reação física a um estímulo mental. Mas que estímulo mental é esse que nos faz reagir fisicamente de uma forma tão peculiar. O que uma coisa tem a ver com a outra?

As teorias são muitas, começando desde a Antigüidade. Platão e Aristóteles diziam que o riso vem de uma sensação de superioridade, vendo o humor como um modo de expressar nosso desprezo pelos que julgamos ser inferiores. Na piada acima, o português faz esse papel. O físico, esperto, sabe que devemos nos manter longe dum buraco negro. Já o português, coitado, se aproxima e tem o mesmo fim dos infelizes que desconhecem as leis da física.

Mas esse não é o único tipo de humor. Existem vários outros, como quando rimos com um jogo de palavras: "O trabalho é a maldição das massas alcoólatras", disse Oscar Wilde, o mestre inveterado das frases feitas. Kant, o grande filósofo alemão, teorizou que o riso é resultado do rompimento inesperado de uma expectativa, o que às vezes é chamado de "teoria da incongruência".

A piada é uma história que esperamos que tenha um fim lógico. É o rompimento inesperado da lógica numa direção absurda que nos faz rir.

Por isso, quando explicamos uma piada ela perde completamente a graça.

O desafio, como afirma o autor Jim Holt em seu recente livro "Stop Me If You've Heard This" (Me Interrompa Se Você Já Ouviu Essa, em inglês, editora W.W. Norton), é entender por que o rompimento com a lógica provoca uma reação física tão peculiar. O que uma coisa tem a ver com a outra?

Entra Freud com a sua "teoria do alívio". Segundo Freud, a piada abre os canais para expressarmos impulsos socialmente proibidos ou reprimidos, não só relacionados ao sexo e à agressividade como, também, o impulso lúdico que adultos, infelizmente, tendem a desprezar em sua pressa diária.

Basta conviver com uma criança para ver como o riso corre mais solto, como tudo é mais engraçado. O riso, para Freud, permite sermos criança mais uma vez, deixando escapar as inibições que nosso superego constrói ao longo de nossas vidas.
O que não temos coragem de falar fica sancionado numa boa piada suja ou de conteúdo racista, machista ou xenófobo. No universo da piada vale tudo.

O problema com essa teoria é que ela prevê que, quanto mais inibida a pessoa, mais ela rirá com a piada, maior será o seu alívio. E estudos mostram justamente o oposto. As pessoas sexualmente mais "abertas" são as que riem mais das piadas
sujas.

Existe até uma teoria que explica o riso através da teoria da evolução de Darwin. Segundo ela, o riso era um modo de comunicação pré-verbal -os chimpanzés, por exemplo, também riem- que visava diferenciar inimigos de amigos. O riso na
chegada de um visitante era o sinal para o grupo de que não existia perigo. Seja qual for a explicação ou as explicações, uma coisa é certa: rir só faz bem.

(MARCELO GLEISER é professor de física teórica)

sábado, 16 de agosto de 2008

Descubra o Amor


Pegue um sorriso
E doe-o a quem jamais o teve.
Pegue um raio de sol
E faça-o voar lá onde reina a noite.
Descubra uma fonte
E faça banhar-se quem vive no lodo.
Pegue uma lágrima
E ponha-a no rosto de quem jamais chorou.
Pegue a coragem
E ponha-a no ânimo de quem não sabe lutar.
Descubra a vida
E narre-a a quem não sabe entendê-la.
Pegue a esperança
E viva na sua luz.
Pegue a bondade
E doe-a a quem não sabe doar.
Descubra o amor
E faça-o conhecer ao mundo.

(Mahatma Gandhi)

Baseada em uma história zen



Ouvi contar que um homem estava viajando de trem pela primeira vez. Ele era um camponês. Estava carregando a bagagem na cabeça, e pensava: Se eu a colocar no chão, será muito peso para o trem carregar, e eu só paguei para mim. Comprei o bilhete, mas não paguei nada pela bagagem. Por isso, ele estava carregando sua bagagem na cabeça. O trem estava carregando o homem e sua bagagem e, quer ele a carregasse na cabeça, quer a colocasse no chão, não faria nenhuma diferença para o trem.
Sua mente é uma bagagem desnecessária. Não faz nenhuma diferença para essa existência que está carregando você. Você está carregando um peso desnecessário. Abandone-o. As árvores existem sem a mente, e de maneira mais bela que qualquer ser humano; os pássaros existem sem a mente, e num estado mais extático do que qualquer ser humano. Veja as crianças que ainda não são civilizadas, que ainda são selvagens. Elas existem sem a mente. ... Não há necessidade dessa mente.
O mundo prossegue sem ela. Por que você a está carregando? Está pensando que será muito peso para Deus, para a existência? Quando você consegue eliminar a mente, ainda que por um minuto, toda a sua existência é transformada. Você entra numa nova dimensão, a dimensão da leveza.
E é isso: asas para voar céu afora — a ausência de peso lhe dá essas asas; e raízes para dentro da terra — uma base, um centro. A terra e o céu. São duas partes do todo. Nesta vida, na chamada vida cotidiana, você deve estar enraizado; e em seu espaço interno, na vida espiritual, você deve ser leve, móvel, fluido, flutuante. ... Uma criança tirada à força será feia, e poderá morrer. Simplesmente, deixe que eu o faça. A criança está ai; você já está prenhe. Todos estão prenhes de Deus. A criança está ai, e você já a carregou por muito tempo. O período de nove meses já passou há muito. Talvez seja esta a causa da sua angústia — você está carregando em seu ventre algo que precisa nascer, que precisa vir para fora, precisa ser dado à luz.
Imagine uma mulher, uma mãe, carregando uma criança em seu ventre, depois do nono mês. Será cada vez mais difícil de suportar e, se o nascimento não acontecer, a mãe morrerá, pois não poderá agüentar. Talvez seja esta a razão de você ter tanta ansiedade, angústia, tensão. Algo precisa nascer de você; algo precisa ser gerado do seu ventre.
(Bhagwan Shree Rajneesh - Osho)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008


“Poucos sabem que o reino de Deus inclui o reino das satisfações mundanas.
O reino divino estende-se ao terrestre, mas este, ilusório por natureza,
não contém a essência da Realidade.”
(Mahavatar Bábaji)

A vida vista de longe

Os cientistas da Terra é que devem ir em busca dos ETs


"A vida busca a vida", escreveu o celebrado astrônomo e divulgador de ciência Carl Sagan. Sendo assim, é no mínimo curioso que ainda não tenhamos recebido visitas de extraterrestres.
Afinal, mesmo se nos limitarmos à nossa galáxia, a ilha de cerca de 300 bilhões de estrelas da qual o Sol e os seus planetas fazem parte, há estrelas e planetas demais para que nenhum tenha desenvolvido vida, incluindo a mais rara vida inteligente. Esse é o famoso paradoxo de Fermi: dado o número de estrelas da Via Láctea e os seus 10 bilhões de anos (o dobro da idade do Sol), os ETs teriam tido tempo de sobra para desenvolver tecnologias capazes de cruzar as enormes distâncias interestelares e vir nos visitar. E a verdade é que, tirando as hipóteses absurdas de Erich von Däniken, segundo a qual ETs estiveram já por aqui e ajudaram a construir as pirâmides egípcias, as linhas de Nazca e outros projetos grandiosos de nossos antepassados (e descontando os relatos de indivíduos sem maior prova do que narrativas ou fotos suspeitas), os ETs nunca estiveram por aqui. Se estiveram, não parecem estar interessados em contatar cientistas ou políticos para um papo mais sério, limitando-se a exibir suas espaçonaves nas noites e a realizar experimentos com o aparelho reprodutor humano.
Dada esta crua realidade, são os cientistas da Terra que devem ir em busca dos ETs. O problema que enfrentamos são as enormes distâncias. Infelizmente, o espaço entre as estrelas é muito grande e essencialmente vazio. Temos procurado por vida na nossa vizinhança, nos planetas e nas luas do Sistema Solar. Mas, até agora, não encontramos nada, e é pouco provável que encontremos mesmo uma mísera bactéria no subsolo marciano, ou no oceano sob a espessa camada de gelo que cobre Europa, uma das luas de Júpiter. A vida, mesmo não sendo exclusividade do nosso planeta, é rara.
Tomemos como exemplo nossa estrela vizinha, a Alfa-Centauro. Em números arredondados, ela fica a 5 anos-luz do Sol: a luz demora cinco anos de lá até aqui. Isso equivale a uma distância aproximada de 50 trilhões de quilômetros (5 x 1013km). Com tecnologias atuais, em que espaçonaves atingem velocidades de cerca de 50 mil km/h, demoraríamos em torno de 115 mil anos para chegar lá... Obviamente não será esse o caminho para descobrirmos se existe vida fora da Terra. Seria realmente fascinante se inteligências extraterrestres tivessem desenvolvido tecnologias capazes de cobrir essas distâncias com mais eficiência. Por que eles não vêm aqui nos explicar como se faz? O jeito é procurarmos por vida remotamente. ETs que tivessem telescópios dotados com espectrógrafos poderiam analisar a composição química da atmosfera terrestre. Veriam a enorme quantidade de oxigênio e água; veriam ozônio, metano, óxido nitroso, e concluiriam que aqui existem ciclos de conversão de energia solar em metabolismo típico de seres vivos. Oxigênio, em particular, é um excelente sinal de vida. Em geral, quando presente, é rapidamente usado na oxidação de rochas. Livre, como por aqui, é prova de que algo o está produzindo com muita eficiência. Algo vivo.
Vários projetos futuros farão o mesmo; procurarão por vida na atmosfera de planetas girando em torno de outras estrelas. A vida, se existir, dependerá da estrela que lhe provê energia; estrelas mais fracas do que o Sol poderão ter plantas pretas, para fixar mais energia; nas mais fortes, as plantas terão de refletir parte da luz; nas estrelas que emitem muito ultravioleta, a vida terá que ser embaixo d'água para se proteger da radiação. Se vida busca vida, parece que somos nós que teremos que encontrá-la.

(MARCELO GLEISER é professor de física teórica e autor do livro "A Harmonia do Mundo")

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Medo


" O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave, que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor"
(Lenine)

No interior do indivíduo, o fator decisivo da liberdade


A idéia que defendo é de que o processo de libertação individual é perfeitamente passível de ser iniciado dentro de uma sociedade repressiva. Isso principalmente porque os poderes de que o meio externo dispõe para nos oprimir são bastante mais modestos que aqueles com os quais nos ameaçam. Se as pessoas livres forem criaturas mais livres e serenas, elas influirão sobre as outras através do exemplo pessoal, de modo a compor uma corrente que abalará rapidamente os alicerces de uma sociedade como a nossa, principalmente porque os que a governam são criaturas infelizes, amarguradas e insatisfeitas, apesar de se empenharem muito para se mostrar realizadas e contentes.
Dessa forma, há muito tempo acredito que a grande revolução que nós, como geração, podemos fazer é a de buscar nos entendermos e saber dos mecanismos de nossa vida psíquica, sempre com o objetivo de construir um modo de vida interior consistente e o mais possível coerente com nossas condutas. A liberdade, para mim, consiste na alegria interior derivada desta coerência entre pensamento e conduta, alegria que só pode ser atingida no final de uma longa e penosa introspecção, através da qual teremos de nos deparar com muitas dolorosas verdades das quais sempre tentamos nos esquivar.
Liberdade não é um tipo determinado de pensar ou agir. Se se definir a liberdade dessa maneira, se estará imediatamente contradizendo sua efetiva significação. Liberdade é o prazer erótico – talvez a mais genuína e gratificante manifestação da vaidade humana – derivado da coerência. A perda da coerência entre pensamento e conduta implica a impossibilidade de experimentar este prazer fundamental, ainda que ela seja derivada de complexas e sofisticadas racionalizações. Como cada cérebro é composto de bilhões de células e foi submetido a experiências peculiares, nada mais provável que cada pessoa chegar a resultados de reflexão muito próprios e essencialmente diferentes das outras. Para ser livre a pessoa terá de se governar por suas conclusões, num processo de permanentes mudanças, posto que novas experiências determinam alterações em nossas convicções.
Dessa forma, uma sociedade que contenha seres livres terá de se acostumar ao respeito pelas diferenças individuais, dado que definitivamente não somos todos iguais. Pessoas livres são antes de tudo respeitadoras do modo de ser e de pensar das outras. De nada adianta certas pessoas fazerem um discurso louvador da liberdade se o próprio conteúdo de suas falas deixa absolutamente claro o desrespeito – e até mesmo a irritação – pelas diferenças de opinião. Tais pessoas são liberais desde que todo o mundo concorde com seus pontos de vista, de modo que é mais que evidente que vivem uma grave contradição, regidas por uma idéia de superioridade através da qual consideram suas idéias mais brilhantes e mais justas.
E são essas pessoas, portadoras de forte tendência totalitária derivada de uma espécie de convicção messiânica (os escolhidos para salvar seus povos) que lhes confere uma significância toda especial, as que mais acreditam nos poderes repressores da sociedade, que passa a ser, portanto, o objeto de seu ódio. Sem perceber, acabam por superestimar tais poderes, o que na prática significa amedrontar as pessoas no sentido de que aquelas que tentarem ousar condutas não convencionais estariam mesmo sujeitas a fortes represálias, nas quais, diga-se de passagem, não acredito. Gostaria de reafirmar mais uma vez minha convicção de que contribuir à sociedade, à família e até mesmo às experiências traumáticas da infância poderes que elas não possuem implica fazer o jogo da ordem social estabelecida, uma vez que serve para acovardar as pessoas – especialmente os jovens – para busca de soluções individuais mais consistentes, num espaço de liberdade que uma sociedade como a nossa é obrigada a deixar, ainda que contra sua vontade.
(Flávio Gikovate)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Poema do Menino Jesus

"Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono."

(trecho do 'Poema do Menino Jesus'
de Alberto Caeiro - Pseudônimo de Fernando Pessoa)

A caverna de Platão


No livro VII de A República, Platão narra que Sócrates propôs a seus ouvintes imaginarem um grupo de prisioneiros acorrentados numa caverna, sem nunca poder se virar. Lá fora há uma fogueira, cujaschamas projetam dentro da caverna as sombras de quem passa diante da entrada. Os prisioneiros,que nunca viram o mundo exterior, julgam que as sombras e o eco das vozes são reais.

O capitalismo, em seus primórdios, produzia em função das necessidades humanas. Não se investia em algo que o consumidor julgasse desnecessário. A superprodução inventou a publicidade de modo a inverter o processo, já não é o consumidor que busca o produto, é o produto que se impõe ao consumidor.

O avanço tecnológico e o designer tornam a mercadoria descartável. Não basta ter um rádio. É preciso ter o novo rádio, de linhas arrojadas, formado menor, capaz de funcionar a pilha. Assim, graças à publicidade o supérfluo torna-se necessário.

Nessa sua fase neoliberal, em pleno advento da pós-modernidade, o capitalismo introduz o mercado como paradigma supremo. Se no período medieval o paradigma foi teocêntrico, e a fé figurava como rainha do saber; se no período moderno o paradigma antropocêntrico fez a fé ceder lugar à razão; agora o mercado não se interessa pelo homem religioso ou racional, interessa-se pelo consumista. E quanto menos razão, mais emoção, o que induz o consumidor a contemplar, embevecido, um novo computador ou os veículos expostos no Salão do Automóvel. Assim, o capitalismo alcança o nosso inconsciente.

Agora, de costas à concretude da existência e indiferentes à sua historicidade, tomamos as sombras por realidades. O sentido da vida desloca-se da fé (coração) e dos ideais (razão) para centrar-se nos objetos possuídos. Vive-se em função de bens finitos. Mesmo para o jovem morador da favela, o tênis de marca é mais importante que a escolaridade e a formação profissional.

A pessoa é o quem tem e ostenta, e não os valores e propósitos que assume. As aparências contam mais que o ser, e ainda que isso não seja verdade há o socorro miraculoso do marketing para convencer-nos de que faz bem à saúde o refrigerante descalcificador; imprime sedução a cerveja que alcooliza; concede status o carro luxuoso. Vale a pena votar no político safado revestido de ética!

Se os bens finitos superam os infinitos, e o desejo converge para o absurdo, e não para o Absoluto, não é de se estranhar que as frustrações sejam proporcionais às ambições. Todos invejam o alpinismo de seus ídolos incensados pela mídia, embora deles conheçamos apenas as sombras projetadas na tela da TV e das revistas, pois estamos irremediavelmente de costas para a porta da rua, convencidos de que o personagem representado por aqueles que exibem fama, poder e riqueza é mais real que as pessoas deles.


(Frei Betto)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

DEFICIÊNCIAS


"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.

"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

"Diabético" é quem não consegue ser doce.

"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:

"Miseráveis" são todos que não conseguem enxergar a grandeza de Deus.

"A amizade é um amor que nunca morre."

(Mario Quintana - escritor gaúcho -1906/1994)

Quanto custa um pôr de sol?

Um grande empresário americano, estando em Roma, quis mostrar ao filho a beleza de um pôr de sol nas colinas de Castelgandolfo. Antes de se postarem num bom ângulo, o filho perguntou ao pai:”pai, onde se paga”? Esta pergunta revela a estrutura da sociedade dominante, assentada sobre a economia e o mercado. Nela para tudo se paga - também um pôr de sol - tudo se vende e tudo se compra. Ela operou, segundo notou ainda em 1944 o economista norte-americano Polanyi, a grande transformação ao conferir valor econômico a tudo. As relações humanas se transformaram em transações comerciais e tudo, tudo mesmo, do sexo à Santísssima Trindade, vira mercadoria e chance de lucro.

Se quisermos qualifica-la, diríamos que esta é uma sociedade produtivista, consumista e materialista. É produtivista porque explora todos os recursos e serviços naturais visando o lucro e não a preservação da natureza. É consumista porque se não houver consumo cada vez maior não há também produção nem lucro. É materialista pois sua centralidade é produzir e consumir coisas materiais e não espirituais como a cooperação e o cuidado. Está mais interessada no crescimento quantitativo – como ganhar mais – do que no desenvolvimento qualitativo – como viver melhor com menos – em harmonia com a natureza, com equidade social e sustentabilidade sócio-ecológica.

Cabe insistir no óbvio: não há dinheiro que pague um pór do sol. Não se compra na bolsa a lua cheia “que sabe de mi largo caminar”. A felicidade, a amizade, a lealdade e o amor não estão à venda nos shoppings. Quem pode viver sem esses intangíveis? Aqui não funciona a lógica do interesse, mas da gratuidade, não a utilidade prática mas o valor intrínseco da natureza, da ridente paisagem, do carinho entre dois enamorados. Nisso reside a felicidade humana.

O insuspeito Daniel Soros, o grande especulador das bolsas mundiais, confessa em seu livro
A crise do capitalismo (1999):”uma sociedade baseada em transações solapa os valores sociais; estes expressam um interesse pelos outros; pressupõem que o indivíduo pertence a uma comunidade, seja uma família, uma tribo, uma nação ou a humanidade, cujos interesses têm preferência em relação aos interesses individuais. Mas uma economia de mercado é tudo menos uma comunidade. Todos devem cuidar dos seus próprios interesses...e maximizar seus lucros, com exclusão de qualquer outra consideração”(p. 120 e 87).

Uma sociedade que decide organizar-se sem uma ética mínima, altruísta e respeitosa da natureza, está traçando o caminho de sua própria auto-destruição.

Então, não causa admiração o fato de termos chegado aonde chegamos, ao aquecimento global e à aterradora devastação da natureza, com ameaças de extinção de vastas porções da biosfera e, no termo, até da espécie humana.

Suspeito que ao não quebrarmos o paradigma produtivista/consumista/materialista em direção do cultivo do capital espiritual e da sustentação de toda a vida, com um sentido de mútua pertença entre terra e humanidade, podemos encontrar pela frente a escuridão.

Devemos tentar ser, pelo menos um pouco, como a rosa, cantada pelo místico poeta Angelus Silesius (+1677) : “a rosa é sem porquê: floresce por florescer, não cuida de si mesma nem pede para ser olhada”(aforismo 289). Essa gratuidade é uma das pilastras do novo pardigma salvador.

(Leonardo Boff)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Seu Olhar

" Eu quisera ter
Tantos anos-luz
Quantos fosse precisar
Pra cruzar o túnel
Do tempo do seu olhar "
(Seu Olhar - Gilberto Gil)

Felicidade Interna Bruta


... O ser humano como um nó de relações orientado em todas as direções, que possui sim fome de pão como todos os seres vivos mas principalmente é movido pela fome de comunicação, de convivência e de paz que não podem ser compradas no mercado ou na bolsa. Função de um governo é atender à vida da população na multiplicidade de suas dimensões. O seu fruto é a paz. Na inigualável compreensão que a Carta da Terra elaborou da paz, esta "é a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte"(IV,f).

A felicidade e a paz não são construídas pelas riquezas materiais e pelas parafernálias que nossa civilização materialista e pobre nos apresenta. No ser humano ela vê apenas o produtor e o consumidor. O resto não lhe interessa. Por isso temos tantos ricos desesperados, jovens de famílias abastadas se suicidando por não verem mais sentido na superabundância. A lei do sistema dominante é: quem não tem, quer ter, que tem, quer ter mais, quem tem mais diz: nunca é suficiente. Esquecemos que o que nos traz felicidade é o relacinamento humano, a amizade, o amor, a generosidade, a compaixão e o respeito, realidades que valem mas não têm preço. O dramático está em que esta civilização humanamente pobre está acabando com o Planeta no afã de ganhar mais quando o esforço seria o de viver em harmonia com a natureza e com os demais seres humanos.

(Leonardo Boff - Teólogo. Membro da Comissão da Carta da Terra)

Leia mais sobre o assunto aqui

quinta-feira, 3 de julho de 2008

" Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, cacador de mim!"

(Milton Nascimento - Caçador de mim)

De bem com a vida 1


"Nós vivemos numa era cheia de estresse.

A sociedade humana em todos os lugares está mudando rapidamente e a tendência para mudanças parece estar aumentando. As mudanças e incertezas são sempre um fonte de estresse.
Paralelamente, a sociedade está se tornando extremamente competitiva - e mesmo as crianças sentem necessidade de competir por boas notas na escola.

E, a medida que as sociedades se modificam, as relações humanas que são fundamentais para sustentar as pessoas estão se enfraquecendo.


Um avião não poderá voar sem a resistência do ar que o faz subir.

Paralelamente, se nós não tivermos nenhuma resistência em nossas vidas, nenhum problema ou desafio, poderemos perder nosso foco e senso de direção.

Assim, tudo depende se somos capazes de usar o 'vento' de modo positivo. Enquanto estivermos vivos, haverá algum momentos de estresse em nossas vidas.

O mais importante é aprendermos a lidar com ele e usá-lo como um impulso para o nosso crescimento, para ampliar os nossos horizontes e encontrar um felicidade ainda maior."

(Daisaku Ikeda - Fonte: Mirror Weekly)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Eco ou vida???

Um filho e seu pai caminhavam pelas montanhas. De repente seu filho, cai, machuca-se e grita:
- Aaai!!!
Para sua surpresa escuta a voz se repetir, em algum lugar da montanha:
- Aaai!!!
Curioso, pergunta:
- Quem é você?
Recebe como resposta:
- Quem é você?
Contrariado, grita:
- Seu covarde!!!
Escuta como resposta:
- Seu covarde!!
Olha para o pai e pergunta aflito:
- O que é isso?
O pai sorri e fala:
- Meu filho, preste atenção!
Então, o pai grita em direção á montanha:
- Eu admiro você!
A voz responde:
- Eu admiro você!
De novo, o homem grita:
- Você é um campeão!
A voz responde:
- Você é um campeão!
O menino fica espantado, não entende.
Então o pai explica:
- As pessoas chamam isso de ECO, mas, na verdade isso é a VIDA. Ela lhe dá de volta tudo o que você diz ou faz. Nossa vida é simplesmente o reflexo das nossas atitudes. Se você quer mais amor no mundo, crie mais amor no seu coração. Se você quer mais competência da sua equipe, desenvolva a sua competência. O mundo é somente a prova da nossa capacidade. Tanto no plano pessoal quanto no profissional, a vida vai lhe dar de volta o que você deu a ela.

SUA VIDA NÃO É UMA COINCIDÊNCIA, É CONSEQÜÊNCIA DE VOCÊ !

(autoria desconhecida)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Caminhos do Coração

"E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente.
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas...

É tão bonito quando a gente vai à vida,
Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração..."
(Caminhos do Coração - Gonzaguinha)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O meu tamanho


'Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura.'
(Drummond)

Excesso de opções dificulta raciocínio


Quem já não se viu angustiado diante do grande número de opções, como cor, modelo e acessórios, de um mesmo produto? Tantas possibilidades acabam sobrecarregando nossos circuitos cognitivos, e o resultado é a falta de concentração para realizar tarefas que exigem raciocínio. Essa é a conclusão de um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, assinado por pesquisadores de quatro universidades americanas.
Participaram do estudo cerca de 350 voluntários que tiveram de fazer uma série de escolhas em três ambientes diferentes: um shopping center, uma sala de aula e o laboratório. Depois, todos tiveram de resolver problemas de aritmética. Quanto maior o número de opções oferecidas, pior o resultado nos testes.

Os participantes do grupo-controle obtiveram desempenho significativamente maior que o de seus colegas confusos com tantas decisões. Nestes, até as escolhas prazerosas, como selecionar presentes para si mesmos, tiveram impacto negativo sobre o exercício do raciocínio. Segundo os autores, o excesso do escolhas consome recursos cognitivos importantes.

Veja o texto do blog aqui

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Metade

"Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio;
que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca;
pois, metade de mim é o que eu grito,
mas, a outra metade é silêncio.
...

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba,
e que ninguém a tente complicar,
pois, é preciso simplicidade pra fazê-la florescer;
porque metade de mim é platéia;
e a outra metade é a canção.

E que a minha loucura seja perdoada,
porque metade de mim é amor,
e a outra metade também. "

(Metade _ Oswaldo Montenegro)

CURSO DE ESCUTATÓRIA

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

... Escutar é complicado e sutil, diz Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:

-Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.

Na nossa civilização, se eu falar logo e logo a seguir fico em silêncio, são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza.

Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou". Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio, na verdade deve querer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

(Rubem Alves)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Curtir mais o dia-a-dia, mas nunca à custa de nossos filhos

Não há dúvida de que precisaremos curtir mais o dia-a-dia, mas nunca à custa de nossos filhos, deixando um planeta poluído, cheio de dívidas públicas e previdenciárias para eles pagarem. Estamos deixando um mundo pior para nós mesmos, são nossos genes que viverão nesse futuro. Inferno nessa concepção é deixar filhos drogados, sem valores morais, sem recursos, desempregados, sem uma profissão útil e social. Se não transmitirmos uma ética robusta a eles, nosso DNA terá curta duração.

"Estar no céu" significa saber que seus filhos e netos serão bem-sucedidos, que serão dignos de seu sobrenome, que carregarão seus genes com orgulho e veneração. Ninguém precisa ter medo da morte sabendo que seus genes serão imortais. Assim fica claro qual é um dos principais objetivos na vida: criar filhos sadios, educá-los antes que alguém os "eduque" e apoiá-los naquilo que for necessário. Por isso, as mulheres são psicologicamente mais bem resolvidas quanto a seu papel no mundo do que os homens, com exceção das feministas.

Homens que têm mil outros objetivos nunca se realizam, procurando a imortalidade na academia ou matando-se uns aos outros. Se você pretende ser imortal, cuide bem daqueles que continuarão a carregar seu DNA, com carinho, amor e, principalmente, dedicação.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

Sair à rua

“A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós
todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e
o coração cantando!"
(Mário Quintana)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O sabor das massas e das maçãs


" Conhecer as manhas e as manhãs

O sabor das massas e das maçãs

É preciso amor pra poder pulsar

É preciso paz pra poder sorrir

É preciso chuva para florir "

(Tocando em frente - Almir Sater)

Palavras

Um personagem de uma novela antiga, dizia, sempre antes de seu discurso, a frase: "Palavras são palavras, nada mais que palavras".

Será? Um ditado suíço diz que "as palavras, como as abelhas, têm mel e ferrão".

Quantas e quantas vezes temos que nos retratar e pedir perdão por palavras proferidas em horas impróprias, e até mesmo palavras impróprias. Palavras que ferem, que machucam, que replicam um xingamento, uma reprimenda, um distrato, um maldizer.

Como é bom quando falamos palavras que constroem, que mudam rumos, que dão novo alento, incentivam, aquecem o coração de alguém, e dão esperança!

Alguém já parou para avaliar a quantidade de más e boas palavras proferidas e fazer o balanço ao final de um dia? Além disso, é costume analisarmos o semblante, a fisionomia, o estado das pessoas que nos ouve após as proferidas palavras?

É certo que, como falou Boff, "todo ponto de vista é a vista de um ponto. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem... Compreende e interpreta a partir do mundo que habita". Daí, a possibilidade de ser mal interpretado, mal entendido. Às vezes, até por distração, podemos magoar as pessoas, principalmente as que nos cercam.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Brinquedo em Rubem Alves

"Brinquedo não serve para nada. (...) O brinquedo é uma atividade inútil. E, no entanto, o corpo quer voltar a ele. Por quê? Por que o brinquedo, sem produzir qualquer utilidade, produz alegria. Felicidade é brincar. E sabem por quê? Porque no brinquedo nos encontramos com aquilo que amamos. No brinquedo o corpo faz amor com objetos de seu desejo. Pode ser qualquer coisa: ler um poema, escutar uma música, cozinhar, jogar xadrez, cultivar uma flor, conversar fiado, tocar flauta, empinar papagaio, nadar, ficar de barriga para o ar olhando as nuvens que navegam, acariciar o corpo da pessoa amada . coisas que não levam a nada. Amar é brincar.
Não leva a nada. Porque não é para levar a nada. Quem brinca já chegou. Coisas que levam a outras, úteis, indicam que ainda estamos a caminho: ainda não abraçamos o objeto amado. Mas no brinquedo temos uma amostra do Paraíso.
A única finalidade do saber adulto é permitir que a criança que mora em nós continue a brincar.. "

(Rubem Alves -
Tudo o que é pesado flutua no ar - Ed. Ouro Preto. 1994)

O Espanto em Cortella

"É necessário não menosprezar a atitude inovadora daquele que, como as crianças, ainda se admira que as coisas sejam como são, em vez de fingir que espantoso seria se não fossem assim...

O que não se pode perder, porém, é a capacidade de ficar espantado; essa perda nos leva a achar tudo muito óbvio e rotineiro, impedindo a admiração que conduz à reflexão criadora. É o famoso (e ambíguo) "parar para pensar" e, claro, admirar."

(Mario Sergio Cortella em 'Não nascemos prontos!')

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Velhice para Cícero

"... A vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada idade de qualidades próprias [...]. A natureza fixa os limites convenientes da vida como qualquer coisa. Quanto à velhice, em suma, ela é cena final dessa peça que constitui a existência [...]." (Cícero, 44 a.C)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Sobre a melancolia

A melancolia (palavra que em meados do século 19 começa a ser substituída pelo termo depressão) é considerada a doença mental contemporânea, e cabe indagar como nossa sociedade facilita o surgimento dessa patologia. Não faremos distinção entre melancolia e depressão. Para muitos, a depressão é uma patologia orgânica, que transparece psicologicamente como tristeza profunda ou melancolia. Ou seja, esta é um sintoma daquela. Em contrapartida, para Freud, não há diferença entre uma e outra. Ambas exprimem o mesmo fenômeno, embora possamos considerar a depressão um sintoma da melancolia, uma vez que a palavra "depressão" significa rebaixamento, ou seja, uma diminuição das atividades, que pode ser tanto orgânica quanto psíquica.

Nossa sociedade alimenta o gosto pelo efêmero; passado e futuro não são referências psicológicas e sociais predominantes, mas sim o presente como instante fugaz. Porém, a ordem humana surge exatamente como capacidade para simbolizar, isto é, para lidar com o ausente, e a primeira relação com a ausência é dada pela relação com o outro sob a forma do tempo, seja como relação com o morto - relação com o que se tornou ausente - seja como relação com a natureza por meio do trabalho, que torna presente o que estava ausente. A temporalidade, relação com a ausência, é, assim, decisiva para a realização do trabalho do luto, e a impossibilidade dessa relação temporal é o que opera na melancolia e dificulta (quando não impede) o trabalho de sua superação. Ora, a sociedade do efêmero, do tempo reduzido ao instante presente fugaz abandonou a densidade e profundidade do tempo, desencadeando a impossibilidade de simbolizar a ausência e, portanto, gerando depressão, isto é, a melancolia.


(Luciana Chauí Berlinck - Psicanalista, mestre em filosofia pela USP)

(Publicado na Revista CULT – Ed. 124)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Cada pessoa que passa em nossa vida

"Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra .

Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.

Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso".

(Charles Chaplin)

domingo, 4 de maio de 2008

Impacto futuro das nossas decisões

Poucas pessoas estão atentas para o ritual de abertura de uma garrafa de champanhe. Descobre-se que há uma espécie de hino ao amor na remoção da cápsula de metal, no desprendimento do arame e subseqüente afrouxamento da rolha. E tudo, como aconselhava um francês: com um leve sussurro, jamais com um estampido para não permitir que o dióxido de carbono escape de forma prematura.

Por isso a rolha assume uma relevância especial no instante em que escolhemos, por exemplo, um vinho... E poucos associam a rolha ao plantio de uma árvore de nome sobreiro, que leva cerca de 40 anos para a extração da boa cortiça.

Sempre tive uma curiosidade especial, ao olhar grandes plantações de sobreiro: como é que alguém pode se dedicar ao cultivo de uma árvore que só renderá frutos econômicos para os filhos e netos? Mas essa maneira de raciocinar é tipicamente brasileira. Somos imediatistas por vocação. O agora conduz a nossa forma de existir. E em todos os aspectos. As generalizações, contudo, são perigosas. Há situações em que o futuro de alguém está atrelado a uma ação rápida e ao respeito que devemos ter pela dignidade do outro... Exceto casos dessa ordem – uma exceção à regra – temos pouco ou nenhum interesse com o impacto futuro das nossas decisões.

(Dayse de Vasconcelos Mayer - advogada e docente universitária)

terça-feira, 29 de abril de 2008

Qual é a melhor religião?

Leonardo Boff explica:

'No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos, na qual ambos participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, perguntei a S.S. Dalai Lama em meu inglês capenga:

- 'Santidade, qual é a melhor religião?'

Esperava que ele dissesse: 'É o budismo tibetano' ou 'São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo'.

O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos - o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia contida na pergunta - e afirmou:

- 'A melhor religião é a que mais te aproxima de Deus. É aquela que te faz melhor.'

Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:

- 'O que me faz melhor?'

Respondeu ele:

- 'Aquilo que te faz mais compassivo (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião...'

Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou.'

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Loucura aumenta o prazer da vida

"Uma pitada de loucura aumenta o prazer da vida. Veja o caso do cinema. Você vai lá, assenta-se e fica vendo um jogo de luzes coloridas projetado numa tela. Você sabe que aquilo tudo é mentira. E, não obstante, você treme de medo, tem taquicardia, pressão arterial alta, sua de medo, ri, chora... É um surto de loucura. Você está tomando imagens como se fossem realidade. Mas, se você não se entregasse por duas horas a essa loucura, o cinema seria tão emocionante quanto ler uma lista telefônica. Passadas as duas horas as luzes se acendem, você sai da loucura e caminha solidamente de volta para a realidade".
("Sobre o Tempo e a Eternaidade -Rubem Alves)

Aprendizado

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Preguiça, Ócio ou Descanso?


No Aurélio, a palavra ócio significa: "Descanso do trabalho; folga, repouso; tempo que se passa
desocupado; vagar, quietação, lazer, ociosidade; falta de trabalho; desocupação, inação,
ociosidade; preguiça, indolência, moleza, mandriice, ociosidade; trabalho mental ou ocupação
suave, agradável."

Nós, seres humanos(?), não vivemos apenas para o (do) trabalho. Necessitamos de horas de folga (lazer, indolência, ociosidade, inação), quando nos ausentamos da agitação, das tensões e preocupações do dia a dia.


"A idéia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos. Na Inglaterra do início do século XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto tinha quinze horas de duração.

Algumas crianças cumpriam, às vezes, essa jornada, e para outras a duração era de doze horas.
Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais, foi-lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida e as crianças afastadas do crime. Eu era ainda criança quando, pouco depois de os trabalhadores urbanos terem conquistado o direito de voto, e para a total indignação das classes superiores, os feriados públicos foram legalmente instituídos. Lembro-me de uma velha duquesa exclamando: 'O que querem os pobres com esses feriados? Eles deviam estar trabalhando.' Hoje em dia as pessoas sao menos francas, mas o sentimento persiste, e é fonte de boa parte de nossa confusão econômica." (O Elogio ao Ócio, de Bertrand Russel)

“As pessoas que acabam sem um minuto livre não são necessariamente aquelas que precisam de todos os instantes para trabalhar a fim de se manter” afirma a psicóloga Mara Chiari, mestre em Filosofia.

Afinal, o que posso chamar de ócio? Quando estamos no ócio, estamos realmente sem fazer nada? Ou será que estamos sempre trabalhando, mesmo que seja apenas mental? Conseguimos ficar com a mente realmente parada?

Será que o tempo que passamos sem fazer nada é perda de tempo?

“É necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade,...”, nos diz Domenico de Masi em seus livro Ócio Criativo.

"A vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro". (John Lennon)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Nós somos águias


Era uma vez um político, também educador popular, chamado
James Aggrey: Ele Era natural de Gana, pequeno país da África Ocidental. Até agora, talvez, um ilustre desconhecido. Mas, certa feita, contou uma história tão bonita que, com certeza, já circulou pelo mundo, tornando seu autor e sua narração inesquecíveis.

Em meados de 1925, James havia participado de uma reunião de lideranças populares na qual se discutiam os caminhos da libertação do domínio colonial inglês. As opiniões se dividiam.

Alguns queriam o caminho armado. Outros, o caminho da organização política do povo, caminho que efetivamente triunfou sob a liderança de Kwame N'Krumah. Outros se conformavam com a colonização à qual toda a África estava submetida. E havia também aqueles que se deixavam seduzir pela retórica* dos ingleses. Eram favoráveis à presença inglesa como forma de modernização e de inserção no grande mundo tido como civilizado e moderno.

James Aggrey, como fino educador, acompanhava atentamente cada intervenção. Num dado momento, porém, viu que líderes importantes apoiavam a causa inglesa. Faziam letra morta de toda a história passada e renunciavam aos sonhos de libertação. Ergueu então a mão e pediu a palavra. Com grande calma, própria de um sábio, e com certa solenidade, contou a seguinte história:

."Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.

Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

– Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.

– De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.

– Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.

– Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:

– Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!

A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

O camponês comentou:

– Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!

– Não – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:

-Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!

Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

O camponês sorriu e voltou à carga:

– Eu lhe havia dito, ela virou galinha!

– Não – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

– Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe !

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou... voou.. até confundir-se com o azul do firmamento... "

E Aggrey terminou conclamando:

– Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.


(A Águia e a Galinha, Uma metáfora da condição humana - Leonardo Boff)